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HISTÓRICO E ICONOGRAFIA DOS PROFETAS


Terminada a execução das imagens dos Passos da Paixão, Aleijadinho e seu "atelier" iniciam as obras no adro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. O magnífico conjunto estatuário foi totalmente executado em menos de cinco anos Mesmo muito debilitado pela doença que o consumia e utilizando largamente do trabalho de seu "atelier", Aleijadinho deixou em Congonhas, nas imagens dos Profetas, a marca de seu Gênio. Esta marca se percebe antes mesmo de uma análise mais detalhada dos 12 profetas. Ela é visível na magnífica integração das estátuas ao suporte arquitetônico construído pelo adro, com suas escadarias e imponentes muros de arrimo. os blocos verticais de pedra parecem brotar espontaneamente dos parapeitos que arrematam a parte superior dos muros, contrapondo a linha horizontal dominante,modulações rítmicas de poderosa força expressiva.

O feito final de unidade entre as estátuas dos Profetas e seu suporte arquitetônico já levou alguns estudiosos a pensarem que o Mestre teria traçado também a planta do adro do Santuário. Entretanto, o mais correto que ele tenha utilizado do espaço já construído, com tamanha genialidade, que o resultado final tenha sido um novo espaço visual, diretamente subordinado ao conjunto escultórico que saiu de suas mãos.

Documentação conservada no arquivo do Santuário revela que as obras de construção do adro podem ser datadas, com precisão, no período compreendido em 1777 e 1790. Seu arrematante, Tomás da Maia Brito, recebeu em 1790, pagamento relativo ao reboco, caiação e confecção de portas, que indicam acabamentos finais da obra. Um espaço de quase dez anos separa, portanto, a conclusão do adro em sua parte arquitetônica e a intervenção de Aleijadinho para realização da parte escultórica. Alguns estudiosos acreditam que Aleijadinho possa ter sido o autor do risco original da obra do adro, iniciada em 1777. Entretanto, essa hipótese é pouco provável, já que nos arquivos do Santuário não se encontra nenhum recibo em nome de Aleijadinho antes de 1796, menos lógico ainda seria admitir a reconstrução do adro por Aleijadinho, pois na obra já construída haviam sido gastas vultuosas quantias.

Na realidade, Aleijadinho não só se utilizou da parte arquitetônica já construída, como também desrespeitou cabalmente os dados previstos pela arquitetura do adro para a colocação de suas esculturas. E ao desrespeitar esses dados, ele conseguiu um efeito melhor, muito mais rico, com suas estátuas monumentais, em tamanho quase natural, que se interligam entre si por um jogo sutil de correspondência, formando um conjunto unitário e ao mesmo tempo diversificado em suas artes. Muitos autores consideram perfeita a organização cenográfica dos Profetas, comparável à de um ato de balé. Germain Bazin observou que determinados profetas desempenham o papel de protagonista, subordinando a si os demais. A função do mestre, nesse "balé", poderia ser atribuída a Abdias, de braço erguido e dedo em riste para o céu, gesto que tem um correspondente do lado oposto, na posição equivalente do braço esquerdo de Habacuc. Um amplo semicírculo iniciado a partir dos gestos desses dois profetas fecha externamente a composição. Esse semicírculo contém internamente dois semi-cículos de dimensões decrescentes, o primeiro podendo ser constituído a partir dos perfis laterais de Jonas e Joel e o último prolongando o gesto das cabeças inclinadas de Daniel e Oséias.

As atitudes e os gestos individuais de cada uma das estátuas são simetricamente ordenados com relação ao eixo da composição. As correspondências não se fazem de forma geométrica, mas por oposições e compensações de acordo com as leis rítmicas do barroco. Um gesto de aparência aleatória, quando visto isoladamente como a ampla flexão do braço direito do profeta Ezequiel, adquire extraordinária força expressiva quando relacionado com seu prolongamento natural, constituído pelo braço esquerdo de Habacuc.

Entretanto essa ordenação geral da obra só se revela integralmente ao espectador que souber respeitar as regras do jogo da cenografia barroca. A arte barroca, de características eminentemente teatrais, sempre tem um ponto de visão privilegiado, e em Congonhas esse ponto situa-se aproximadamente a meia encosta da esplanada, entre o jardim dos Passos e a escadaria de acesso ao adro. dali, torna-se mais fácil tanto à apreensão geral da composição, quanto às estátuas dos profetas individualmente. Vistas por esse ângulo, torna-se quase imperceptíveis as discutidas deformações que caracterizam quase todas as esculturas. As proporções atarracadas dos profetas Isaías e Jeremias, adquirem surpreendentes força expressiva quando observadas nesta posição.

Numa análise mais profunda, alguns estudiosos discutem o verdadeiro sentido dessas deformações. Até que o ponto elas resultariam de uma intencionalidade do Aleijadinho, ou o contrário, deveriam ser imputadas apenas à incapacidade técnica dos oficiais que o auxiliaram em sua obra. A primeira hipótese é mais provável uma vez que Aleijadinho já provara anteriormente, nas imagens dos Passos sua capacidade técnica para execução de esculturas anatomicamente perfeitas.

Pode-se objetar também que as imagens da escadaria superior do Santuário do Bom Jesus de Braga, em Portugal, construída no mesmo período, não obedecem a um tratamento convencional das proposições e que Aleijadinho teria buscado intencionalmente, um efeito de expressão, através das deformidades.

Entretanto, alguns autores concluem que a origem das deformações dos Profetas seria mesmo a insuficiência técnica dos auxiliares de Aleijadinho. As maiores dificuldades da obra dos Profetas, em comparação com a dos Passos, surgiram com o novo sistema de trabalho em pedra que parece ter exigido de Aleijadinho um esforço quase sobre-humano. A obra dos Passos, fora recentemente concluída e em 1800 o artista já entrega o primeiro lote de estátuas, correspondente aos 12 primeiros meses de trabalho. Todas as figuras pertencentes a este grupo já apresentam fortes doses de intervenção do atelier. Parece mesmo que Aleijadinho se limitou à execução das cabeças e ordenação de alguns detalhes, como as mãos. Depois da entrega deste primeiro grupo há uma interrupção de uma ano, após a qual Aleijadinho retoma a obra por pouco mais de cinco meses para nova interrupção de cerca de dois anos. Em 1805, estava concluído o famoso conjunto estatuário barroco e as deformações de alguns Profetas não diminuem a importância da obra do mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

ICONOGRAFIA

A série de profetas de Congonhas é uma das mais completas da iconografia cristã ocidental. Além dos profetas maiores, figuram oito profetas menores, tendo sido naturalmente selecionados os primeiros na ordem do cânon bíblico. A teologia cristã fixa em 16, o número ideal de profetas, que resulta da soma dos 12 apóstolos e quatro evangelistas. Os quatro maiores profetas, assim chamados pela maior quantidade de textos proféticos escritos, correspondem aos evangelistas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os doze profetas menores correspondentes aos apóstolos são Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. No conjunto esculpido por Aleijadinho há a substituição de Miquéias por Baruc, discípulo e secretário de Jeremias, que não integra a lista oficial de profetas, uma vez que seus textos ficaram integrados aos de Jeremias na edição da Vulgata.

Aleijadinho não apenas respeitou a ordenação do Cânon bíblico para a escolha dos Profetas de Congonhas, como ainda situou-os no adro em posição que seguem de perto a referida ordenação. Isaías e Jeremias ocupam os primeiros postos à entrada. No terraço intermediário, encontra-se Baruc à esquerda e Ezequiel à direita. Finalmente, alcançando o nível superior, temos nas posições de honra, Daniel e Oséias seguido imediatamente por Joel. Ocupando os ângulos laterais da esquerda, estão Amós, Abdias e Jonas, sendo que Naum e Habacuc ocupam posições correspondentes à direita. A trajetória de uma seta numa linha contínua sobre a planta da adro, seguindo a ordem descrita, revelaria um desenho em ziguezigue para a parte central das escadarias, com alternância de Setas para a direita e oblíquas para a esquerda. Duas grandes diagonais se cruzam ao centro do último patamar, unem Joel a Amós e Jonas e Naum. O término da trajetória é assinalado, de ambos os lados, pelas oblíquas que unem Amós e Abdias e Naum a Habacuc.

No norte da Europa, especialmente na região de Flandres, se estabeleceu o tema da caracterização dos profetas, patriarcas e outros personagens bíblicos, com vestimentas exóticas e complicadas, que incluíam longos casacos e mantos debruados de baixas bordadas, completados por barretes em forma de turbantes à "Moda turca".

São portanto comuns as representações de personagens vestidos "à moda turca" na arte portuguesa no período entre 1500 a 1800. Aleijadinho teve certamente conhecimento do tema, através de gravuras, forma usual da difusão dos temas iconográficos e artísticos na era anterior à fotografia. tanto que a coroa de louros de Daniel e a baleia de Jonas são curiosamente análogas às de gravuras editadas em Florença no século XV.

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