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A capela da Prisão, construída contemporaneamente à do Passo do Horto, apresenta características bem próximas.O que difere nos dois edifícios é o formato da cartela, cujo contorno se torna sinuoso no Passo da Prisão, adptando-se melhor ao arco da verga. O tipo de letras é o mesmo para as duas inscrições, e até as minúsculas folhagens estilizadas são repetidas na cartela da Prisão. A inscrição é a seguinte:
"Tanquam. ad/ Latronem, exis/ Tis cum ( gladis et) lignis. Co/ Imprehendere me'.
- "Como se eu fosse um ladrão (com espadas e) varapaus viestes prender-me".
Como no Passo do Horto, a referência ao evangelista também não figura na cartela. O tema iconográfico da Prisão no Horto é representado em um de seus episódios mais populares - o milagre da cura de Malco, servo do sumo pontífice. Esta cena sempre se constitui numa predileção dos artistas por sua alta potencialidade dramática. Ela conjuga uma série de personagens com reações totalmente diversas. oito personagens compõe o grupo da prisão. Jesus, São Pedro, Malco, Judas e quatro soldados. Num gesto instintivo de defesa, São Pedro derruba um dos guardas que tentava se aproximar do Mestre e decepa-lhe a orelha com a espada. Cristo, mansamente ordena a Pedro que reponha a arma na bainha e avança em direção à vítima para curá-lo. No evangelho, a vítima é identificada como sendo Malco, servo do pontífice máximo de Jerusalém. Na ceia, Malco ainda jaz de joelhos, enquanto Judas, em posição de recuo, contempla a tudo tomado de estupor. Ao fundo, quatro soldados romanos observam ostensivamente, prontos a investir. O uniforme militar da guarda romana sofre algumas adaptações como a substituição de sandálias por botas e calções visíveis por debaixo das curtas túnicas. Como a cena se passa à noite, Aleijadinho dotou os soldados de archotes, além das lanças e espadas. "tendo, pois Judas tomado a corte e guardas, fornecidos pelos pontífices e fariseus, ali foram ter com lanternas, archotes e armas". (S. João, cap. 18. v.3).
Neste grupo nota-se já uma intensa intervenção do "atelier"e apenas as imagens de Cristo e de São Pedro podem ser consideradas como inteiramente esculpidas por Aleijadinho. A questão de colaboração de auxiliares ainda pouco estudada, constitui um dos problemas fundamentais da análise crítica da produção artística de Aleijadinho.
Dois aspectos essenciais distinguem o trabalho pessoal de Aleijadinho. É visível a sua superioridade do ponto de vista formal e a presença de determinados traços bem marcantes, característicos do artista.Os mais freqüentes são o "planejamento anguloso", comparado por Germain Bazin ao dos escultores alemães do século XVI, e alguns aspectos da morfologia dos corpos de suas esculturas.
Uma vez bem conhecida a marca individual do Aleijadinho parece simples o problema da colaboração de seus auxiliares. Entretanto, seus auxiliares procuravam imitá-lo nos mínimos detalhes, e sem nem sempre conseguiram bons resultados, verdade é que, em alguns casos, a semelhança dos estilos deixa grande margem de dúvida.
O conjunto de imagens do Passo da Prisão é entre todos o mais homogêneo. Suas características são bem definidas e todas as peças são bastantes próximas do estilo do mestre, indicando mais que simples colaboração, uma interferência recíproca na maioria das esculturas.
O tratamento caricatural dado às fisionomias dos soldados está inserido em antiga tradição da arte cristã ocidental, cujas origens estão ligadas às representações medievais do Teatro da Paixão. As caricaturas criadas por Aleijadinho têm poderosa força de expressão, manifestando sentimentos de cólera e furor. O oposto se verifica nos outros Passos onde, na maioria das vezes, seus auxiliares realizaram apenas inexpressivos rostos de manequins.
Outras características dos soldados do Passo da Prisão, são os corpos robustos e bem proporcionados. As imagens chegam a medir +- dois metros de altura e suas posições são lógicas e coordenadas no espaço. Parece que o projeto original incluía a adaptação de olhos de vidro, pois os grandes olhos das esculturas, não possuem o corte típico da íris.
Como nos dois Passos anteriores, a policromia da Prisão, de autoria de Manola da Costa Athayde, funciona como principal agente de unidade estética. As imagens de Cristo, São Pedro e Judas receberam as mesmas cores da Ceia s do Horto, e o tom mais claro da túnica do Cristo é devido, segundo alguns estudiosos, ao desgate das tintas. Cores vivas e agressivas como o alaranjado e o vermelho, são predominantes nas esculturas dos soldados. As expressões de hostilidade dos algozes são acentuadas pela forte mistura de vermelho, dando-lhes inclusive um aspecto sanguíneo.
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