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"Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras.
Sobem ladeiras que levam a Deus e
vão deixando culpas no caminho."
Carlos Drummond Andrade
A festa do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos é o maior evento cultural e religioso de Congonhas. Ele foi concedido pelo Papa Pio VI, em 1779. Antigamente a duração deste evento era de 1º a 14 de setembro. Nesta época os fiéis traziam oferendas, cumpriam penitências, subiam as escadas de joelho, rezavam a ladainha e acendiam velas ao Senhor Bom Jesus em troca do milagre realizado.
É durante o Jubileu que Congonhas demonstra sua força e tradição religiosa. Entre 7 e 14 de setembro dirigem-se para a cidade, milhares de romeiros vindos de diversas partes do país, para prestarem homenagem ao Bom Jesus e agradecerem as graças alcançadas.Gente simples, que em seu encontro anual com o Senhor revive sua paixão. Famílias inteiras participam de missas e bênçãos especiais durante vários anos, sem interrupção. Os peregrinos vêm beijar a fita vermelha da imagem do Senhor Bom Jesus e deixar seus ex-votos na Sala dos Milagres.
Não existe estatística precisa, mas calcula-se que cerca e 500 mil pessoas visitam Congonhas durante o Jubileu. Atualmente, a cidade recebe os romeiros, que através dos mais diversos meios de transportes, chegam e retornam no mesmo dia. Diariamente renova-se o contingente de peregrinos,que vêm à Congonhas depositar sua fé no Senhor Bom Jesus, mas antes da ligação da cidade com a BR-040, eram outras as características dos romeiros. Os devotos chegavam com suas famílias durante toda a semana para receberem a bênção final e lotavam totalmente a cidade. Gente que chegava a pé, a cavalo, em caravana, nos trens de ferro e até no lombo de burros. Congonhas inteira se transformava num conjunto de pensões. Os proprietários da cidade alugavam quartos, quintais e até alpendres que serviam de abrigo para os romeiros.
Construiu-se, então, no início da década de 30, à direita do Santuário, no fim da Alameda das Palmeiras, a Romaria, uma pousada constituída de um conjunto de casas baixas, fechando um círculo ao redor de um imenso pátio. Para ocupar esse abrigo cada família pagava cinco mil réis por todo o período do Jubileu. Esta quantia era considerada na época acessível a qualquer família, mesmo as de recursos muito pequenos. A Romaria foi demolida em 1966 e reconstruída em 1995.
Para se compreender a festa do Jubileu, é preciso entender antes a origem dessa devoção. A demonstração de fé até hoje cultuada pelos fiéis nasceu praticamente junto com o Santuário, quando Feliciano Mendes colocou a sagrada imagem do Bom Jesus para ser venerada em público exatamente a 08 de abril de 1757. Essa imagem era fixada num pequeno oratório de madeira, que Feliciano Mendes usava em suas andanças para recolher esmolas para a construção do Santuário. Diante dela, prosternavam-se os devotos, beijando-a respeitosamente ao entregarem seus óbolos. Estes primeiros devotos eram os mineradores portugueses, que, angustiados pelas saudades de sua terra natal, oravam e adoravam aquela imagem que viera da terra mãe.
Já construído o Santuário, a devoção ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos ganhou cada vez mais novos adeptos e a cada dia apareciam novas notícias dos milagres a Ele atribuídos.
Por volta de 1770, o administrador Inácio Gonçalves, que prestou relevante serviço de ordem material para a Basílica, tratou de cuidar especialmente da parte espiritual e obteve o mais completo êxito. Organizada sob sua orientação, a Irmandade do Senhor Bom Jesus de Matozinhos de Congonhas do Campo recebeu do Papa VI imensa série de indulgências, aplicáveis aos confrades e demais devotos, estatuídos em oito Breves, expedidos sucessivamente de 27 de fevereiro a 11 de março de 1779.
Originaram-se, daí, os grandes festejos do Jubileu, a princípio, em maio e setembro. Entretanto, as chuvas de maio tornavam os caminhos intransitáveis e a freqüência da romaria foi se reduzindo, até que se fixou entre 8 a 14 de setembro, uma data permanente para a sua realização.
A imagem do Senhor Morto, jacente, adorada ainda hoje pelos fiéis, veio de Portugal e foi ali colocada em 1787, ano em que se consolidaram os festejos do Jubileu.
Desafiando os tempos, a romaria permanece com toda a sua força, se renovando a cada dia, na esperança de milhares de brasileiros, que todos os anos, continuam a trilhar os caminhos do Bom Jesus de Matosinhos.
Na Sala dos Milagres, esses fiéis depositam seus ex-votos, relatos dos milagres concedidos pele fé no Senhor. Em frente ao Santuário, assistem às missas rezadas diariamente e veneram o Senhor Morto. A maioria deles vem a Congonhas movidos pela fé. Há e sempre houve, entretanto, uma boa parcela desta gente que todo ano, vem ao Jubileu para fazer comércio. Antigos moradores afirmam que, em tempos mais remotos, esses comerciantes ganhavam, durante o Jubileu, dinheiro suficiente para viver o resto do ano. Hoje, de forma geral, eles não revelam quanto ganham. Falam até mesmo em prejuízos, mas, certo é que, todos os anos, eles estão de volta. Mesmo os que não comerciam ganham dinheiro indiretamente, pois as calçadas são alugadas pelos proprietários das casas aos barraqueiros, para instalarem suas tendas. Alguns destes barraqueiros, vindos de outras cidades e até de outros Estados, preferiram ficar em Congonhas e aqui criaram suas raízes. Vendendo bolinho, santinho, pastel, livros de missa, bonecos de pano, sanduíches, roupas, refrigerantes e calçados. Sem falar da boa pinga da roça, que não pode faltar. Congonhas fica tomada pelas barraquinhas, que vendem de tudo; comercializam produtos de todos os tipos ( importados, vestuário, alimentação, etc).
Estas barraquinhas que se erguem em Congonhas durante o Jubileu remontam de um tempo antigo. No início do século, até 1930, além da proliferação do comércio, o Jubileu apresentava ainda seu lado profano. Do outro lado da ponte, entre os festejos noturnos, aconteciam os bailes, em meio a muito jogo e outras atrações mundanas. Vinham de fora diversos artistas e os mais famosos circos se apresentavam em Congonhas nessa época.
De tudo isso resta, atualmente, apenas a fé inabalável dos romeiros e o comércio montado para atender esses peregrinos. Durante o Jubileu, Congonhas, realmente, se transforma. No entanto, essa invasão de peregrinos, não incomoda o povo, que vê na convivência com os romeiros uma verdadeira demonstração de fé. Deste sentimento puro o povo de Congonhas entende profundamente. Afinal, os que aqui nasceram sabem o que é ter a proteção do Senhor Bom Jesus. Sabem o que é olhar para o alto e reencontrar todos os dias, suas esperanças no Senhor. E, por saberem disto, recebem com alegria os romeiros, que vêm de longe e que, com suas presenças, reforçam a tradição religiosa de Congonhas.
A popularidade do Jubileu não ficou somente entre os fiéis e crentes. Inspirou escritores ilustres, como Bernardo Guimarães, quando descreveu a romaria em "O Seminarista" em 1872 e ainda Carlos Drummond de Andrade, além do viajante francês Saint Hilaire e Xavier da Veiga nas observações de "Efemeridades Mineiras".
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