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Inexplicavelmente, após a conclusão das capelas do Horto, e Prisão, as obras dos Passos ficaram paralisadas durante quase meio século. A capela da Flagelação e Coroação de Espinhos só começou a ser construída em 1864. Foi decidida nessa mesma época a edificação de apenas seis capelas, em vez das sete inicialmente previstas. Essa decisão provocou o congestionamento deste quarto passo, pois o espaço é pequeno para abrigar simultaneamente os grupos da Flagelação e Coroação de Espinhos.
Essa capela difere das do Horto e Prisão apenas pela sua cúpula de proporções mais atarracadas e por sua cartela de menor dimensão, consistindo apenas num pequeno retângulo, encimado por verga alteada. O tipo das letras e os ornatos laterais são um pouco grosseiros, se comparados com as linhas delicadas do belo fecho de verga da porta, provavelmente mais antigo.
Curiosamente, no texto de inscrição, o nome do evangelista está em português.
"Ecce/Homo/S.João/Cap. 19"
" - Eis o Homem".
A apresentação de Cristo à turba ... por Pilatos está em desacordo com os temas apresentados no interior da capela. No interior da capela ambas as cenas são independentes, separadas uma da outra por uma barra de madeira. Existe a impressão de desordem e confusão, causada pela falta de espaço, pois a capela foi projetada para alojar um único grupo. Esta impressão permanece, mesmo após um exame mais minucioso, quando a concepção original de ambas as cenas continua sendo difícil. Das quatorze peças do conjunto, mais da metade não têm função iconográfica precisa, o que dificulta a compreensão imediata da cena. O Cristo da Flagelação está representado de pé, com as mãos atadas por uma corda que as prende ao anel da coluna baixa colocada à sua frente. Esta coluna não é produto exclusivo da imaginação de Aleijadinho.
Apesar de não serem mencionadas em nenhum dos textos evangélicos, existem duas colunas da Flagelação, uma em Roma e outra em Jerusalém, que foram veneradas como relíquias importantes desde os primórdios da era medieval. O Cristo de Aleijadinho, embora atado à coluna baixa, mantém-se ereto e firme como os Cristos medievais, suportando com altivez e nobreza o suplício da Flagelação. Dos cinco verdugos, apenas dois ocupam-se em açoitá-lo, atitude que pode ser verificada pela posição do braço direito levantado acima da cabeça. Originalmente, deveria haver um chicote ou objeto semelhante, já desaparecido. Ao fundo, um soldado segura a túnica da qual Cristo foi despojado para o suplício. Quanto ao soldado do primeiro plano, que parece esbofetear Cristo, parece se tratar de personagem habitual nas representações da Paixão. Os artistas costumam dar-lhe os mesmos traços de Malco, aquele soldado curado por Cristo na cena da Prisão.
O grupo da Coroação de Espinhos não tem significação iconográfica bastante precisa. É composto por oito personagens e apenas as três imagens de primeiro plano têm participação definitiva na cena.
O personagem central, Cristo, está sentado num monte pequeno de pedras, tendo nos ombros um monte de púrpura e na cabeça uma coroa de espinhos. Encarna desta forma, aos olhos dos soldados, a figura irrisória de 'Rei dos Judeus". Um desses soldados, de joelhos, apresenta-lhe a cana verde , à guia de cetro. Como reforço suplementar à significação temática da cena, o soldado da esquerda segura em uma das mãos o "titulus"com a inscrição INRI - Jesus Nazareno, o Rei dos judeus, inscrição esta que figura em todas as Crucificações.
São atribuídas ao Aleijadinho apenas as duas imagens do Cristo. Uma terceira, a do segundo soldado do grupo da flagelação, pode ser atribuída também ao artista. É indiscutível a superioridade formal desta escultura, se comparada às demais figurações dos soldados romanos dos Passos. O trabalho pessoal do mestre revela-se pela magnífica expressão caricatural do rosto, dos olhos, queixo e rugas na testa. A estrutura robusta do tronco, as veias salientes, podem ser comparadas aos do Cristo, ao lado. Este soldado possivelmente esculpido por Aleijadinho, provavelmente serviu de modelo para as figuras deixadas a cargo exclusivo do "atelier", e aí está sua importância maior.
Das imagens pertencentes ao grupo da Flagelação e Coroação de Espinhos, seis apresentam características estilísticas em comum, como os olhos pequenos, íris plana, boca delicada, queixo pouco proeminente, fisionomia inexpressiva, corpos menos robustos, pernas esguias em posições complicadas e às vezes ilógicas. Não tendo nenhum paralelo com as estátuas esculpidas pessoalmente por Aleijadinho, de forma completa ou parcial, estas imagens podem ser atribuídas isoladamente a um ou mais artesãos.
Muito provavelmente, não foi Manoel da Costa Athayde o autor da policromia das imagens desta capela. O estilo difere bastante do das precedentes capelas de sua autoria e também não figura entre os lançamentos relativos ao artista, no 1º livro de Despesas. A ausência de referências documentais dificulta a atribuição da policromia a qualquer artista conhecido da época, porém, alguns estudiosos a atribuem a Francisco Carneiro. A policromia das imagens das três últimas capelas pode inclusive ter sido feita por ocasião da última etapa da construção, na última metade do século XIX.
Muito diferente das carnações de Mestre Athayde, o Cristo da Coroação é quase um mulato, enquanto o da Flagelação é bem mais claro. Também as cores dos uniformes dos soldados diferem das empregadas por Athayde. O cinza das couraças é substituído por verde-escuro, debruado de azul e amarelo, enquanto o rosa desaparece por completo. Os calções, anteriormente brancos, neste quarto Passo, tomam coloração agressiva em tons de amarelo, vermelho, alaranjado e até mesmo azul-escuro.
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