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Na segunda metade dos anos 30, Congonhas começou a ter um grande carnaval, caracterizado, sobretudo, por rivalidade tão ferrenha que hoje, mais de meio século depois, os relatos daqueles idos parecem entremeados de tempero folclórico. Os três grupos que se distribuíam pela cidade guardam certa correspondência com as três maiores escolas de samba: o Ideal se converteu na Matriz, o Esportivo tornou-se Mocidade e o Cruzeiro é a Jacuba.
Liderado por Lamartine de Freitas, seu fundador, o Ideal tinha as cores verde e branca. Suas promoções eram realizadas numa casa atrás da Igreja de Nossa Senhora da Conceição,onde hoje se localiza a Carpintaria e Marcenaria D. Silvério, do Miguelito. A "sede"foi deslocada para o local onde se encontra a casa do Bené Bonsucesso, mais tarde para um prédio, já demolido, ao lado da casa do Sr. Nonô, local posteriormente transferida para outra residência, próxima à Praça da Estação. Só no final da década de 50 deu-se a inauguração das suas instalações, na Praça João Nogueira de Rezende, quando o clube não mais se associava a bloco de rua.
O Esportivo tinha como chefe João Borges da Cunha, a quem mais tarde vieram opor-se elementos da família Junqueira. Estes cuidaram de organizar o Congonhas Club, de curta duração. O Esportivo que elegeu o preto e o branco como suas cores, instalou-se na Praça Dr. Mário Rodrigues Pereira, próximo ao lugar onde atualmente fica a Casa Turista tendo definido, também no final dos anos 50, sua sede na Rua Pe. Antônio Correia. Coube ao Esportivo reunir a elite social de Congonhas, o que lhe valeu, naturalmente, cerrada resistência das demais agremiações, integradas pelas massas populares.
Já o Cruzeiro contava com a liderança de Agostinho Barros e João Evangelista de Miranda. Como as demais agremiações, o clube tinha o seu departamento de futebol, à cuja testa atuava João de Deus Manso. Embora tenham tido espetaculares os embates esportivos daqueles tempos, vamo-nos concentrar somente na parte social.
As reuniões sociais desse clube eram feitas na residência do Sr. Cornélio de Souza Costa, na Rua Feliciano Mendes. Bailes de carnaval, festas juninas, comemorações de aniversários, noivados e casamentos aconteciam naquela casa, que tinha os efeitos de sede.
Evento de grande destaque eram as quadrilhas que se dançavam com todas as peças, marcadas em francês por Cornélio Costa ou Antônio Trigo. Em época de apresentação, o pessoal fazia ensaios diários, com birra mortal pelo erro: no capricho, todos se empenhavam na busca dos melhores resultados. A poeira que se levantava do piso foi dominada com espermacete e fubá. Além da limpeza do ar, respirável, aquele preparado permitia que os pés e os pezinhos deslizassem elegantes e graciosos pelo assoalho.
Nos desfiles de Carnaval, o número de componentes de cada grupo girava em torno de 80, com pouco mais de uma dúzia funcionando na banda: trombones, baixos, clarinetas, pistões, flautas, saxofones, sax-centro, banjos e até castanholas se dispunham em filas, uma de cada lado da rua, e saíam executando marchas trazidas do Rio de Janeiro, pois não havia composições locais para o desfile. D. Levinda Lobo, para o Cruzeiro, ficava com a tarefa de transpor para a clave de sol as músicas escritas em fá.
Enorme animação sacudia a pequenina Congonhas do Campo que, por justificada precaução, resguardava do préstito as moças, as crianças e os idosos. Tudo por causa do encravado ódio que as agremiações nutriam umas pelas outras.
Nas proximidades dos festejos carnavalescos, cada qual no seu canto. Nada de ficar zangado por aí. Não havia propriamente bairros, áreas ou regiões. A palavra mais correta para definir a localização das residências seria território. Isso: Território, coisa de limitações rígidas, como em tempo de guerra.
Ai de quem ousasse transgredir a convenção das linhas divisórias! Macho para encarar os adversários, lá no campo deles, estava em falta, e se por vicissitude fosse preciso cair na banda alheia,que botasse tento nos olhos, respeito nos cumprimentos, distância de lengalengas, e cada poro do corpo virasse olho, que o perigo rondava a cada passo.
Procedimento de competente sabedoria era o de não "facilitar". Topar com inimigos só mesmo em turmas, ajustadinhas contra as artimanhas dos outros. Eles, sim, uns arengueiros. O encontro fatal acontecia no domingo de Carnaval. Não havia comissão julgadora. Sem reconhecimento oficial de resultado, o jeito era forçar a opinião pública, única responsável pelo estabelecimento de uma classificação. O curioso da disputa é que não havia ordem para o desfile, nem prazo definido: todos os blocos se apresentavam ao mesmo tempo, cruzando na mesma pista.
Um dos critérios para o julgamento era o do tom, pois geralmente se considerava vencedor o que conseguisse cobrir o canto dos demais. A especial natureza da disputa dava origem e outro critério, este de poder incontestável. Já que se defrontavam fisicamente, era comum os grupos se interpenetrarem, provocando uma confusão dos diabos.
Vê-se, a terra era praça de guerra pra quem bulisse com o Carnaval. Mas a rivalidade não vigorava somente nas festas de Momo, principalmente no tocante ao pessoal do Cruzeiro e do Ideal. Todo ano, a mesma coisa. O povo do Ideal fazia a dança dos Marujos, verdadeiro teatro de rua, bem como promovia a novena da Senhora da Conceição. Já o Cruzeiro oferecia as atrações das rezas de maio e sediava o jubileu, que por algum tempo se estendia por semanas e semanas, isso porque o pessoal de fora tinha que aproveitar a viagem, realizada não sem grandes sacrifícios. Tudo muito bonito e concorrido, só que os agrupamentos não podiam se freqüentar que davam provocações a atritos, fosse por parte dos moços, fosse pelos velhos, fosse pelas crianças.
Com o passar dos tempos as famílias se entrelaçam, ajudando a desfazer as rígidas barreiras que separam os dois bandos. Foi um processo lento, mas contínuo, alicerçado pelo sentimento de fraternidade que, pouco e pouco, fazia-se valer sobre a beligerância. Ainda hoje se observam resquícios da velha rivalidade, atualizada com a ríspida disputa entre Jacuba e Matriz, mas já vivemos outras eras e agora é possível brigar com métodos que mais se aproximam do que comumente se chama de civilização.
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