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O ALEIJADINHO


Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é sem dúvida, o artista colonial brasileiro mais estudado e conhecido. Entretanto, alguns pontos de sua vida são ainda obscuros, a começar por sua data de nascimento. A data de 29 de agosto de 1730, encontrada em uma certidão, não condiz com as indicações de certidão de óbito de Aleijadinho, conservado no arquivo da paróquia de Antônio Dias de Ouro Preto. Baseado neste segundo documento, o artista teria falecido em 18 de novembro de 1815, com setenta e seis anos, e seu nascimento dataria, portanto, de 1738. Nasceu bastardo e escravo, uma vez que era "filho natural" do arquiteto português Manoel Francisco Lisboa e de uma de suas escravas africanas.

A mesma incerteza caracteriza o capítulo de sua formação. Provavelmente ele não teria freqüentado outra escola que a das primeiras letras, e talvez algumas aulas de latim. Sua formação artística, ao que tudo indica, teve como prováveis mestres, primeiramente o pai, o arquiteto de grande projeção na época, e o pintor e desenhista João Gomes Batista, que exercia as funções de abridor de cunhos na Casa de Fundição da então Vila Rica. Resta, contudo, precisar as origens de formação do escultor, aspecto sem dúvida primordial em sua produção artística e primordial em sua produção artística e que interessam diretamente ao estudo de suas obras em Congonhas. Como hipóteses desta formação temos por indicação de alguns biógrafos, nomes como de Francisco Xavier de Brito e de José Coelho Noronha, ambos artistas entalhadores de renome no período, e que provavelmente atuaram como mestres de Aleijadinho. Não se pode deixar de mencionar, neste terreno, a influência de gravuras européias, principalmente registros de Santos de origem germânica, com as quais as imagens de Aleijadinho apresentam afinidade estilística.

A primeira menção histórica relativa à carreira artística de Antônio Francisco Lisboa data de 1766, quando o artista recebe a importante encomenda do projeto da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto.

Antes dessa data, a personalidade de Aleijadinho se definia pela plenitude da vida, com gozo de perfeita saúde, boa mesa e afinidade com as danças vulgares da época. Tudo isso, porém, aliado ao exercício de sua arte. Manuel Francisco Lisboa, parai de Aleijadinho, vem a falecer em 1767, deixando nome de grande arquiteto e deixando também alguns filhos, que tinha com a mãe do artista e outros do matrimônio legítimo. Entre estes o padre Félix Antônio Lisboa, que tratava Aleijadinho com grande deferência e com ele provavelmente apurou o latim, freqüente em sua obra. Em 1772, ingressa na irmandade de São Jopsé e, em 1775, teve um filho, nascido no Rio de Janeiro, batizado com o nome de Manoel Francisco Lisboa, em homenagem ao pai. A mãe do menino foi Narcisa Rodrigues da Conceição. Ao que consta, o filho de Aleijadinho seguiu sua vocação, tornando-se também escultor. Casou-se com Joana de Araújo Correa, e teve um filho que recebeu o nome de Francisco de Paula.

O ano de 1777 seria o ano que dividiria sua vida. Um ano de doenças, crucial. Até ali, suas obras refletiam jovialidade e uma certa alegria. Depois, e principalmente no final, a obra do artista é triste, amargurada e sofrida.

"Tanta preciosidade se acha depositada em um corpo enfermo que precisa ser conduzido a qualquer parte, e atarem-se-lhe os ferros para poder obrar" (informação do vereador de Mariana, Joaquim José da Silva, citado por Rodrigo Ferreira Bretas). Há recibos de despesas pelo transporte de Aleijadinho, que confirmam essa citação. Sobre a doença do grande artista já se publicaram vários estudos, mas nenhum deles pôde ser contundente. Tancredo Furtado, num excelente estudo chega a estas conclusões: "A lepra é a única doença capaz de explicar a mutilação (perda dos dedos dos pés e alguns das mãos) e a desfiguração facial, as quais lhe valeram a alcunha de Aleijadinho.

"A lepra nervosa (tipo turberculóide da moderna classificação) é uma forma clínica não contagiosa, em que as manifestações cutâneas podem ser discretas ou mesmo ausentes. É relativamente benigna, poupa os órgãos internos e tem evolução crônica. Compreende-se assim, que Antônio Francisco Lisboa tenha vivido quase 40 anos após haver se manifestado a doença que não o impediu de completar sua volumosa obra artística.

O nome e a obra de Aleijadinho alcançam imensa fama após 1790. O artista tinha deixado Vila Rica por volta de 1788. Antes, em 1779, fora convocado a Sabará, onde trabalhou em encomendas relativas à ornamentação interna e externa da igreja da Ordem Terceira do Carmo. Durante um período de mais de vinte anos, Aleijadinho foi requisitado sucessivamente pela maioria das vilas coloniais minerais que passaram a requisitar ou até disputar o trabalho do artista, cuja vida transformara-se numa verdadeira roda-viva, sendo às vezes, obrigado a trabalhar em obras de duas ou mais cidades diferentes.

A produção artística deixada por Aleijadinho, confirmada por documentos de arquivo, é considerável. Recibos redigidos e assinados de seu próprio punho existem em grande número e constituem juntamente com os lançamentos correspondentes dos livros de despesas, fonte histórica de certeza indubitável. A maior parte desses documentos encontra-se em seus locais de origem, ou seja, nos arquivos dos templos onde Aleijadinho trabalhou.

São inexistentes estudos e pesquisas aprofundados sobre o Atelier do Aleijadinho, ao qual sem dúvida, pertence boa parte das obras que são atribuídas ao artista. Os oficiais do "Atelier" são mencionados em grande número de documentos e estiveram com seu mestre na maioria das obras realizadas por ele. Esses oficiais auxiliavam Aleijadinho na execução de obras secundárias, no acabamento, ou até mesmo na confecção de peças inteiras como nos Passos de Congonhas. É provável que esses artesãos tenham executado obras por conta própria mesmo durante o período de vida de Aleijadinho e, certamente, também após sua morte.

Sob esse aspecto, o conjunto de Congonhas oferece material abundante para pesquisa. A amplitude da obra realizada em Congonhas, em apenas nove anos, exigiu a cooperação intensa de auxiliares, mais do que em qualquer outra situação. Já no final de sua vida, gravemente mutilado pela enfermidade, Aleijadinho não teria deixado tão valioso conjunto de obras, sem a colaboração de seus artesãos.

Em 1796, no apogeu de uma vitoriosa carreira artística, e considerado pelos próprios contemporâneos como superior a todos os outros artistas de seu tempo, Aleijadinho inicia em Congonhas o mais importante ciclo de sua arte. Em menos de dez anos cria um total de 78 estátuas, entre as quais estão as suas obras-primas.

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